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Acordar de madrugada para comer pode ser sinal de transtorno

Cintia Cercato

22/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Você acorda de madrugada para comer? Ou conhece alguém com esse comportamento? Isso pode ser um transtorno alimentar chamado síndrome do comer noturno. Essa condição se caracteriza pela presença de episódios repetidos de despertar noturno para comer e/ou pelo consumo excessivo de boa parte das calorias do dia após o jantar, associado à insônia e falta de apetite pela manhã.

A prevalência dessa síndrome é semelhante entre mulheres e homens e é mais comum em pessoas que sofrem de insônia, obesidade e problemas psiquiátricos, como depressão. Estatísticas americanas indicam que a síndrome do comer noturno atinge 1,5% da população, mas chega a afetar 20% a 55% de pessoas que buscam tratamento cirúrgico para a obesidade.

Os critérios que ajudam a identificar uma pessoa com esse problema incluem:

• Consumir pelo menos 25% das calorias de todo o dia após o jantar (hiperfagia noturna) e / ou ter necessidade de acordar à noite para comer
• Ter pelo menos 3 dos 5 sintomas: falta de desejo de tomar café da manhã (anorexia matinal), humor deprimido ou pior à noite, forte desejo de comer entre o jantar e o início do sono (ou durante a noite), acreditar que é preciso comer para pegar no sono e ter problemas de sono, como dificuldade para iniciar ou manter o sono.
• Existir a consciência de que o comportamento alimentar é alterado, e isso leva a sofrimento pessoal.

A causa da síndrome é desconhecida, mas pesquisas sugerem uma combinação entre predisposição genética e processos biológicos e psicológicos. Pesquisas já demonstraram que mães com alimentação noturna têm mais probabilidade de ter filhos com o mesmo padrão. Além disso, quem tem síndrome do comer noturno possui mais chance de ter um parente de primeiro grau com o mesmo problema, sugerindo que existe um componente genético.

As pesquisas sugerem também que o transtorno é exacerbado durante períodos de grande estresse na vida. Essa descoberta levou os pesquisadores a avaliar se o cortisol — principal hormônio do estresse — poderia ter relação com o problema. Eles encontraram que os indivíduos "comedores noturnos" apresentam maior produção de cortisol que o grupo sem o transtorno, indicando que a síndrome está relacionada a uma resposta anormal ao estresse.

Outro hormônio possivelmente envolvido é a melatonina. Ela ajuda a manter o ritmo circadiano do organismo, sendo produzida à noite e promovendo o sono. Um estudo que avaliou a produção de melatonina entre 22h e 6h da manhã encontrou que pessoas com a síndrome do comer noturno apresentavam menor produção do hormônio que as pessoas sem o transtorno. Assim, a melatonina também tem sido implicada no desenvolvimento do problema.

A importância de identificar essa condição é que, além de causar angústia e sofrimento, pessoas com a síndrome têm mais risco de problemas metabólicos, como excesso de peso e diabetes. Vale a pena ressaltar que existem tratamentos medicamentosos que podem ser úteis. Se você sofre com isso, procure a ajuda de seu médico.

Sobre a autora

Cintia Cercato é médica endocrinologista pela USP (Universidade de São Paulo), que se dedica à obesidade desde que defendeu doutorado nessa área em 2004. É a professora responsável por essa disciplina na pós-graduação da Faculdade de Medicina da USP, onde desenvolve várias pesquisas sobre o tema. Foi presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e atualmente é diretora do departamento de obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
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Sobre o blog

Este é um espaço com conteúdos relevantes sobre controle do peso, dieta, estilo de vida e tratamento da obesidade. Todas as publicações têm como base a melhor evidência científica disponível, garantindo informações de credibilidade.

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