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Blog da Cintia Cercato

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Açúcar e gordura viciam? Podemos dizer que eles agem como as drogas?

Cintia Cercato

07/12/2018 04h00

Crédito: iStock

Alguns alimentos podem causar vício? O que significa ser viciado em açúcar ou gordura? Existem mecanismos neurobiológicos comuns entre o vício em drogas e o vício em comer? Estas questões têm sido muito debatidas nos últimos anos e o avanço na taxa de obesidade em todo o mundo aumenta o interesse de pesquisadores no assunto. Até o momento, não existe um consenso sobre o tema. Alguns pesquisadores acreditam que não se pode dizer que o comportamento alimentar possui mecanismos similares aos de pessoas viciadas em drogas, mas outros acreditam que tais situações refletem mecanismos neurais comuns.

Como o vício em comida é definido?

Autores defendem haver uma dependência física e psicológica por alimentos altamente palatáveis, ricos em açúcar e gordura. Os sintomas relacionados ao comer lembrariam aqueles tipicamente experimentados por pessoas com vícios em substâncias tóxicas, como um forte desejo, associado à perda de controle, consumo excessivo, tolerância, sintomas de abstinência e angústia quando o alimento é retirado.

O termo vício é impreciso, mas de fato existem padrões de comportamento e experiências subjetivas relacionadas ao consumo alimentar que se assemelham ao abuso de drogas, como a forte necessidade de comer alimentos ricos em açúcar e gordura, que se sobrepõe ao desejo de limitar a ingestão. Apesar da consciência das consequências negativas desse superconsumo, o indivíduo é incapaz de se controlar e apresenta altas taxas de "recaídas" quando decide não comer algo, tal qual um viciado em substâncias químicas.

Pesquisas utilizando neuroimagem demonstraram que os alimentos altamente palatáveis podem modificar a ativação de muitas estruturas cerebrais já implicadas em abuso de drogas. Açúcar e gordura estimulam uma região cerebral envolvida em recompensa e prazer, também estimulada por drogas. Além disso, pessoas viciadas em drogas apresentam uma menor atividade do córtex frontal –região cerebral envolvida no controle inibitório desse consumo por prazer e recompensa. O mesmo foi observado em pessoas com compulsão por doces e obesidade.

No entanto, apesar das semelhanças, alguns autores acreditam que a equivalência biológica entre essas situações é bastante diferente. Comer é uma necessidade biológica, e comparar um hábito inato com consumo de drogas pode ser bastante inadequado.

Apesar de ainda existir uma série de dúvidas no conceito de vício em açúcar e gordura, e ele estaria relacionado à epidemia da obesidade, políticas de redução de consumo de açúcar, como o acordo firmado recentemente entre o Ministério da Saúde e a indústria alimentícia e de bebidas são muito bem-vindas. O compromisso assinado prevê a redução voluntária de mais de 144 mil toneladas de açúcar até 2022 nos produtos industrializados fabricados no Brasil. Sem dúvidas, será um ganho para a saúde de nossa população!

Sobre a autora

Cintia Cercato é médica endocrinologista pela USP (Universidade de São Paulo), que se dedica à obesidade desde que defendeu doutorado nessa área em 2004. É a professora responsável por essa disciplina na pós-graduação da Faculdade de Medicina da USP, onde desenvolve várias pesquisas sobre o tema. Foi presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e atualmente é diretora do departamento de obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
- Site: www.cintiacercato.com.br
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Sobre o blog

Este é um espaço com conteúdos relevantes sobre controle do peso, dieta, estilo de vida e tratamento da obesidade. Todas as publicações têm como base a melhor evidência científica disponível, garantindo informações de credibilidade.