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Blog da Cintia Cercato

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O estresse realmente contribui para o ganho de peso?

Cintia Cercato

2015-02-20T19:04:00

15/02/2019 04h00

Crédito: iStock

Sem dúvida vivemos em uma sociedade estressante. Inúmeros fatores incluindo dificuldades econômicas, excesso de exigências no trabalho, problemas pessoais e familiares contribuem para que cada vez mais pessoas sofram cronicamente de altos níveis de estresse. Ao mesmo tempo, estamos frente a uma grande epidemia de obesidade. Será que esses fenômenos estão relacionados?

Olhando através de uma lente evolucionária, nosso corpo desenvolveu uma série de respostas frente ao estresse. Diante de predadores ou outras ameaças, o organismo respondia com alterações metabólicas que tinham por finalidade reservar energia para alimentar os músculos e deixá-los preparados para correr ou lutar. Nos tempos modernos, a grande maioria dos estressores são psicológicos, mas o corpo responde como se tais estressores fossem físicos. Isso faz com que a energia liberada não seja utilizada para a chamada "fuga ou luta" e acabe sendo armazenada na forma de gordura. De fato, uma análise de vários estudos conseguiu demonstrar claramente uma relação positiva entre estresse e ganho de peso.

Uma revisão publicada recentemente na revista Annual Review of Psychology discute um modelo que conecta o estresse com a obesidade, através de mudanças induzidas por experiências emocionais negativas em quatro esferas, que podem estar relacionadas e sofrerem influências bidirecionais. Achei bastante interessante a abordagem e trago aqui um apanhando geral desses fatores.

1- Cognição

a função cognitiva envolve linguagem, memória, atenção e a função executiva que nada mais é do que a capacidade de planejar e tomar decisões. No caso da regulação do peso a função executiva é fundamental para planejar a dieta ou mesmo ter um controle inibitório frente a alimentos muito recompensadores, como doces por exemplo. Pesquisas indicam que estressores psicológicos afetam a função executiva e as pessoas acabam tendo menor controle sobre a alimentação. Além disso, o estresse pode aumentar a ativação de uma região cerebral relacionada a emoções, desencadeando o chamado comer emocional já discutido anteriormente aqui no blog.

2- Comportamento

Foi demonstrado que o estresse interrompe o padrão de atividade da pessoa, seja pela diminuição da atividade física ou por aumento de comportamento sedentário. Uma revisão de mais de 160 pesquisas demonstrou uma associação consistente entre estresse e redução de atividade física. Um fator que contribui para isso é a privação de sono. Pessoas estressadas tendem a ter uma pior qualidade de sono, afetando a disposição para a realização de atividade física, adotando um comportamento mais sedentário.

3- Fisiologia

O estresse crônico está associado a uma maior atividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, aumentando a produção de cortisol. O cortisol é um hormônio que aumenta o apetite e reduz o metabolismo, favorecendo ganho de peso. Além disso, mudanças no sistema cerebral de recompensa já foram caracterizadas em pessoas com altos níveis de estresse, aumentado a vontade de alimentos bem calóricos, ricos em açúcar e gordura. Mais recentemente até mudança da flora intestinal para um padrão de flora mais deletéria tem sido observada em estudos experimentais.

4- Bioquímica

Alterações nos hormônios que regulam o apetite têm sido detectadas em pessoas com estresse crônico. A leptina é o principal sinalizador de saciedade enquanto que a grelina é o hormônio da fome. O estresse afeta a ação desses hormônios, de modo a prevalecer a ação da grelina sobre a ação da leptina, contribuindo para o maior apetite.

Portanto, existem diversas explicações que ligam o estresse crônico com o ganho de peso. O grande desafio é como não se estressar tanto no mundo atual? Algumas atitudes são de grande importância. Uma delas é administrar bem o tempo, definindo prioridades. Não se esquecer de dedicar uma parte do tempo para realização de uma atividade prazerosa. Alguns estudos mostram também que a atividade física e meditação podem ser úteis no controle do estresse.

Sobre a autora

Cintia Cercato é médica endocrinologista pela USP (Universidade de São Paulo), que se dedica à obesidade desde que defendeu doutorado nessa área em 2004. É a professora responsável por essa disciplina na pós-graduação da Faculdade de Medicina da USP, onde desenvolve várias pesquisas sobre o tema. Foi presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e atualmente é diretora do departamento de obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
- Site: www.cintiacercato.com.br
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Sobre o blog

Este é um espaço com conteúdos relevantes sobre controle do peso, dieta, estilo de vida e tratamento da obesidade. Todas as publicações têm como base a melhor evidência científica disponível, garantindo informações de credibilidade.