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Medicamentos fitoterápicos são úteis para tratar a obesidade?

Cintia Cercato

14/02/2020 04h00

iStock

Excesso de peso e obesidade constituem uma verdadeira epidemia. O tratamento é complexo e muito estigmatizado. Talvez, por isso, muitas pessoas acabam recorrendo a substâncias fitoterápicas com o intuito de perder peso. Existe uma crença popular de que esse tipo de tratamento é mais seguro, tem menos efeitos colaterais e poderia ser uma boa alternativa terapêutica.

Um estudo americano mostrou que uma em cada cinco pessoas que está tentando perder peso já usou algum tipo de produto fitoterápico no último ano. Apesar dos muitos produtos disponíveis, poucos têm evidência científica tanto para eficácia, quanto para segurança. Isso porque ao contrário do que acontece com os medicamentos, em que são exigidos estudos com milhares de pacientes antes da aprovação e da comercialização, esse mesmo rigor não é exigido para o registro de um fitoterápico.

Uma pesquisa publicada no mês passado no periódico Diabetes, Obesity and Metabolism procurou fazer uma revisão dos principais estudos que utilizaram fitoterápicos visando a perda de peso. Só foram analisados estudos controlados, de maior qualidade e em populações de pessoas com excesso de peso e obesidade. Um total de 54 pesquisas foram identificadas e cuidadosamente avaliadas.

Apesar de alguns princípios ativos demonstrarem perda de peso, nenhum efeito clinicamente significativo foi observado. Muitos estudos tinham problemas metodológicos, incluíam um número muito pequeno de participantes e tinham duração muito curta. A conclusão dos autores da revisão foi de que "atualmente, existem evidências insuficientes para recomendar qualquer um desses medicamentos fitoterápicos para perda de peso".

De acordo com as Diretrizes Brasileiras de Obesidade publicadas em 2016 pela Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), os fitoterápicos são abordados no capítulo de tratamentos heterodoxos para perda de peso, definidos no documento como aqueles que pretendem produzir redução do peso ou da gordura corporal e não são correntemente ensinados nas escolas médicas ou recomendados usualmente em ambulatórios de hospitais de ensino. De acordo com as diretrizes, os fitoterápicos "não possuem evidência de utilidade, segurança e benefício no tratamento de sobrepeso e obesidade".

Também preocupante foram os dados levantados por pesquisadores australianos no ano passado. Segundo os pesquisadores, 50% de fitoterápicos e suplementos nutricionais comercialmente disponíveis apresentavam contaminação, após análise através de técnicas mais sofisticadas que as que são usualmente empregadas. Em alguns produtos foram encontrados estimulantes não declarados nos rótulos, o que pode constituir um grande risco a saúde do consumidor.

Referências bibliográficas:

  • Maunder A, Bessell E, Lauche R, Adams J, Sainsbury A, Fuller NR. Effectiveness of herbal medicines for weight loss: a systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials. Diabetes Obes Metab. 2020 Jan 27.
  • Diretrizes Brasileiras de Obesidade 2016 (link: http://www.abeso.org.br/uploads/downloads/92/57fccc403e5da.pdf)
  • Crighton E, Coghlan ML, Farrington R, Hoban CL, Power MWP, Nash C, Mullaney I, Byard RW, Trengove R, Musgrave IF, Bunce M, Maker G. Toxicological screening and DNA sequencing detects contamination and adulteration in regulated herbal medicines and supplements for diet, weight loss and cardiovascular health. J Pharm Biomed Anal. 2019 Nov 30;176:112834.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Cintia Cercato é médica endocrinologista pela USP (Universidade de São Paulo), que se dedica à obesidade desde que defendeu doutorado nessa área em 2004. É a professora responsável por essa disciplina na pós-graduação da Faculdade de Medicina da USP, onde desenvolve várias pesquisas sobre o tema. Foi presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) e atualmente é diretora do departamento de obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
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Sobre o blog

Este é um espaço com conteúdos relevantes sobre controle do peso, dieta, estilo de vida e tratamento da obesidade. Todas as publicações têm como base a melhor evidência científica disponível, garantindo informações de credibilidade.

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